A realidade no campo

A realidade no campo

 

Há um grande fluxo de migrantes que vão do Sul e do Sudeste para trabalhar sobretudo na lavoura, e também na pecuária. Com esse intuito, muitas famílias alojaram-se especialmente no sudoeste de Goiás, no Mato Grosso do Sul e no Mato Grosso.

São frequentes as pessoas com fenótipo de pele clara e mais sensíveis à exposição ultra violeta solar e com maior risco de carcinomas de pele e melanomas, sofrendo exposição solar crônica e/ou intensa em uma região extremamente ensolarada, com aproximadamente 2.650 horas de sol ao ano.

Os índices de Goiânia não são muito diferentes do que vemos no mundo: cerca de 73% de carcinomas basocelulares, 22% de carcinomas escamosos e de 5% de melanomas.

Foi realizado em 2014 um trabalho de análise temporal em Goiânia, analisando 21 anos de casos de câncer de pele, de 1988 a 2008. Dos 27 mil casos levantados de câncer de pele, 99% tiveram confirmação histológica da doença.

Para essa análise foram usadas informações do banco de dados de registro de câncer de base populacional da cidade de Goiânia, importante ferramenta para refletir a realidade do município e região. Goiânia tem um dos registros de cânceres de maior confiabilidade do País, com coleta de todos os casos de câncer de forma ininterrupta desde 1988.

Os dados da análise em Goiânia mostraram que a incidência é rara antes dos 30 anos (tanto de melanoma quanto de não-melanoma) e a medida que o grupo etário vai envelhecendo, aumenta a incidência, de tal forma que para os não melanomas o pico se dá a partir dos 60 anos tanto para homens quanto para mulheres. Nos melanomas, o aumento da curva de incidência começa a partir dos 50 anos.

Como a análise foi realizada por 21 anos, possibilitou traçar um perfil epidemiológico de Goiânia, projetando para a situação do Centro-Oeste.

Foi registrada a taxa de crescimento anual em torno de 6% para câncer de pele não melanoma e 9% para melanoma. Os números mostram que o melanoma está crescendo numa proporção maior do que os não melanomas. Esse crescimento também se constata em algumas regiões do mundo.

Interessante destacar, como o melanoma atinge um grupo etário mais jovem, afeta um percentual importante da população economicamente ativa do campo.

O maior problema no campo é a DESINFORMAÇÃO. Muitos não sabem sequer que sol provoca câncer de pele. A grande maioria nunca ouviu falar nada sobre melanoma. Não sabe o que é câncer de pele. Não sabe que câncer de pele mata e que pode dar metástase.

Um grande problema: não existe política pública de prevenção e conscientização da população de risco. Não há qualquer programa do governo voltado ao homem do campo e à prevenção do câncer da pele.

Temos campanhas anuais de prevenção da Sociedade Brasileira de Dermatologia, que apesar de serem nacionais, não conseguem chegar aos rincões brasileiros. São mais focalizadas nas capitais e grandes cidades e sem repercussão nas áreas rurais do país.

Continuando esse cenário, o Brasil vai experimentar, daqui a algum tempo, uma incidência de câncer de pele crescente com impacto financeiro importante para o custeio do tratamento desta neoplasia, por não ter investido em prevenção. Sabe-se que esta prevenção deve obrigatoriamente ter seu início na criança e juventude para evitar a doença do adulto.

O segundo problema é a falta de assistência no local em que o trabalhador vive, no seu próprio município.

Grande parte dos pacientes é da zona rural, do campo, vive em pequenos municípios inexpressivos em população. Mal tem assistência qualificada para fazer diagnóstico ou encaminhar a um centro maior. Com isso, há uma grande demora para chegar a um especialista - em torno de 2 anos, desde o inicio dos sintomas.

A situação ainda é melhor que muitos locais da região Norte e que alguns da região Nordeste. Entretanto, pior do que a realidade nas regiões Sul e Sudeste.

Essa demora no diagnóstico é crucial porque no melanoma, um milímetro separa a vida da morte.

O paciente com melanoma que tem espessura tumoral menor que 1 milímetro, tem chance em torno de 90% de curar o tumor.

Quando há demora para diagnosticar e descobre a doença com espessura tumoral de 4 milímetros, a chance de curar é de 50%.

Quanto mais tempo demora para procurar especialista, pior é o prognóstico.

Um trabalho feito em 2012 com 178 casos de pacientes com melanomas tratados no hospital constatou que os pacientes chegavam com casos avançados: mulheres com espessura tumoral média de 3,6 milímetros e homens com 4,3 milímetros de Breslow.

Muito acima do que se espera de um diagnóstico precoce para o melanoma, que é de no máximo até 1 milímetro.

Os pacientes chegam com tumores muito avançados para começar o tratamento.

Essa situação vem mudando. Analisando dados das décadas de 80 e 90 encontramos casos mais avançados. Depois começaram a aparecer mais casos em estágios iniciais. Mas, no geral, cerca de 90% dos pacientes com melanoma chegam com tumores invasivos e apenas 10% apresentavam tumores in situ na cidade de Goiânia.

As regiões do corpo que têm maior aumento de incidência são, para mulheres, membros inferiores e superiores seguidos de cabeça e pescoço; nos homens, tronco seguido de cabeça e pescoço.

Quanto aos grupos etários com maior risco de melanoma, vemos as mulheres nos extremos: com idades mais jovens, abaixo de 50 anos, e após os 70 anos; já nos homens, são mais acometidos a partir dos 60 anos.

No caso do melanoma avançado, metastático, até por volta de 2011,  não havia no Brasil tratamento eficaz. Haviam drogas ineficientes com índices baixíssimos de menos de 10% de efetividade e nem se sabe se os bons resultados se davam por conta da droga ou reação do organismo.

Depois de 2013, principalmente dentro de protocolos de pesquisa, surgiu uma gama de novos medicamentos com taxas de resposta interessantes, chegando em alguns programas de associação de drogas de até 40 a 50% de resposta. Ou seja, salvando pessoas que estavam fadadas a morrer.

Mas o acesso a essas drogas é muito difícil, normalmente o governo não paga o tratamento - só via Ministério Público e há demora na liberação do processo, o que causa piora na sobrevida.

Esse acesso é diferente de região para região. No Sudeste existe um número de trabalhos abertos possibilitando colocar esses pacientes carentes em tratamento.

No Centro-Oeste não há protocolo de pesquisa - depende do SUS e demanda tempo.

Esse acesso precisa ser revisto - dar acesso a essas pessoas que necessitam para ter uma sobrevida maior.

Flávio Cavarsan

Diretor do Grupo Brasileiro de Melanoma, cirurgião oncológico membro titular do departamento de Melanoma e Pele da Associação de Combate ao Câncer de Goiás. Sócio efetivo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica e sócio colaborador da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Conselheiro do Conselho Regional de Medicina de Goiás. Mestrado pela Universidade Federal de Goiás, tendo como área de concentração o câncer de pele.