Um Conto de Dois Confinamentos - Londres e São Paulo

Um Conto de Dois Confinamentos - Londres e São Paulo

Por Richard House
Foto: Hospital Nightingale no Excel em Londres para pacientes Covid-19.  Andrew Parsons/FotosPublicas?
Artigo publicado em 29.05.2020


Sentimos o choque assim que nosso grupo de 'latinos' desembarcou vindo de São Paulo, no dia 5 de maio, entrando no lounge quase vazio do aeroporto de Amsterdã. Era um grupo compacto e desordenado. Os funcionários de terra vieram ao nosso encontro com uma série de ordens claras para nos afastarmos mais e respeitarmos o distanciamento social.

Apenas usar máscaras e álcool gel nas mãos não era suficiente na Europa: o distanciamento social aprendido durante nosso tempo no Brasil claramente ficou muito aquém do padrão holandês. Viajantes no voo lotado da KLM - tanto de europeus que ficaram presos por alguns meses esperando por um voo para casa, como de brasileiros residentes na Europa - foram vistos como vindos de uma cultura covid-19 menos robusta. 

Quando eu cheguei em casa em Londres mais tarde naquele dia, ao final da minha longa jornada, isso marcou o início do meu segundo isolamento social, que tornou-se o meu "Um Conto de Dois Confinamentos" em dois hemisférios, oferecendo visões contrastantes de como a pandemia foi tratada. Isso me deixou intrigado, como exatamente o mesmo vírus poderia produzir estatísticas de infecção e mortalidade tão diferentes em distintos países. Será que existem fortes razões culturais e sociológicas para o Brasil ser particularmente atingido de forma tão forte?

Durante dois meses presenciei a 'Pandemia do Sul' (de 22 de fevereiro a 4 de maio estive em São Paulo, Rio e no interior de São Paulo). Minha experiência da "Pandemia do Norte" começou antes de Londres começar a relaxar suas regras de confinamento à medida que a curva estatística de novas infecções começou a se achatar, depois que mais de 35.000 pessoas morreram no Reino Unido. Apenas duas semanas após minha chegada em casa, o Brasil já havia ultrapassado o Reino Unido no ranking de infecção por Coronavírus, enquanto previsões mais sombrias sugerem que até agosto aproximadamente 100.000 brasileiros poderão morrer.

Ninguém pode dizer que a condução da crise pelo governo britânico foi impecável. No entanto, eu sinto Londres relativamente calma e segura quando comparada com a confusão e falta de direção que senti no Brasil durante abril e início de maio. A disputa entre governos federal e estadual e a demissão de dois ministros da saúde geraram um alarme generalizado.

A última impressão que senti antes de ir embora foi a de que o Brasil estava se engajando em alguma experiência deliberada e arriscada para testar os limites das políticas de laissez faire sem qualquer rede de proteção. Eu me senti menos triste por deixar um país que amo e visito há décadas.

No entanto, seria ingênuo e injusto emitir uma condenação generalista da condução do Brasil na crise do Covid-19. Há tantos esforços separados, às vezes conflitantes para vencer o vírus, pontuados por histórias individuais de heroísmo, generosidade e amor. Mas, na área das políticas públicas, hoje é difícil encontrar muito para elogiar.

No entanto, há sinais positivos de que comportamentos individuais - moldados pelo caráter nacional - podem ajudar a vencer o vírus. Aqui na Grã-Bretanha, o espírito fleumático de Keep Calm and Carry on (Mantenha a Calma e Siga em Frente) ajudou até onde o governo falhou. O espírito comunitário, a abnegação, o respeito tanto pela lei e pelos bens nacionais como o Serviço Nacional de Saúde (NHS) - o equivalente ao SUS brasileiro - ajudaram mais o esforço nacional do que um navio cargueiro cheio de ventiladores vindos da China. 

O foco asiático no benefício da comunidade claramente ajudou a vencer o Coronavírus. Assim como o pragmatismo norte europeu da Alemanha. O sul da Europa parece que fez as coisas certas, mas ainda assim sofreu. Apesar de sua riqueza e sistemas médicos organizados, países anglo-saxões como os EUA e o Reino Unido sofreram indevidamente por causa de sua tolerância ao individualismo deliberado sobre as necessidades do grupo.

Então, como o caráter nacional do Brasil tem ajudado - em vez de dificultar - os esforços para reduzir a taxa geral de infecção do Covid-19? Alguns fiéis ainda podem acreditar que "Deus é brasileiro". Mas sem intervenção divina ou ações governamentais coordenadas, o que poderia muito bem pender a balança a favor do Brasil é o comportamento individual.

Superficialmente, os sinais não são bons. Se o que ajuda a vencer o vírus é a autodisciplina e o auto isolamento, então o retrato falado do caráter nacional brasileiro é justamente o oposto. Os brasileiros são gregários, lúdicos, esportivos, emocionais e altamente sociais, mas com uma poderosa veia de individualismo. Vi exemplos de distanciamento social indisciplinado e desrespeito intencional às regras.

Então, quais são as "armas secretas" culturais do Brasil na luta contra o Covid-19? Muito simples: não são valores institucionais encarnados pelo governo. Não são "medicamentos milagrosos" de valor não comprovados. São os valores pessoais universais que vemos sendo implantados em todas as nações onde há algum sucesso contra uma pandemia universal.

Toda sociedade é composta por indivíduos, famílias, clãs, colegas e entidades corporativas. Se qualquer um desses descuidadamente deixar seu portão aberto e desprotegido, daí essa doença entra.

Os "guardiões do portão" são: Solidariedade; Resiliência; Companheirismo; Persistência; Generosidade, Benevolência, Criatividade e, acima de tudo, Esperança.

Ao longo dos meus 40 anos viajando pelo Brasil de norte a sul, visitando ocas indígenas na Amazônia, casas simples nas comunidades do Rio, e até (em tempos melhores) o Palácio do Planalto, em Brasília, encontrei esses valores em todos os lugares. 

Se existe algum "remédio milagroso" para o Brasil, creio que são esses.

 

Richard House foi durante nove anos (1982 a 1991) correspondente do jornal Washington Post no Brasil. Já trabalhou também para o Financial Times, The Economist, Independent e BBC realizando, principalmente, reportagens econômicas, coberturas de grandes acontecimentos internacionais e entrevistas com líderes políticos e de negócios. Em meados dos anos 2000, migrou para o setor de comunicação corporativa e tornou-se ghostwriter e coach internacional de executivos e de membros de Conselhos de Administração de empresas líderes em seus segmentos, muitas delas da área da saúde.