Prevenção e ausência de novas tecnologias são gargalos para promoção da saúde do homem no Brasil

Prevenção e ausência de novas tecnologias são gargalos para promoção da saúde do homem no Brasil

Debate sobre Políticas Públicas, promovido pelo LAL, reúne especialistas que sugerem caminhos e oportunidades para mudar o atual cenário da atenção dada pelo SUS ao brasileiro 

 


A saúde do homem no Brasil ainda enfrenta grandes desafios, principalmente quando se fala de prevenção, informação para a sociedade e profissionais de saúde e uso de novas tecnologias em tratamentos no Sistema Único de Saúde (SUS). Durante toda a manhã do dia 04 de abril, o tema foi discutido no Seminário de Políticas Públicas sobre Saúde do Homem, promovido pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, no Sheraton São Paulo WTC Hotel, durante o X Congresso Internacional de Uro-oncologia. "Precisamos discutir uma linha de cuidado para a saúde do homem. O atendimento precisa ser diferenciado. É necessário que ele tenha os mesmos avanços que as mulheres tiveram, e é para isso que nós lutamos", afirmou a presidente do LAL, Marlene Oliveira, no discurso de abertura do seminário.

Ao falar da campanha Novembro Azul, uma iniciativa do LAL, lançada em 2011, ela lembrou da rejeição enfrentada no início e afirmou que as barreiras vêm sendo quebradas ano a ano. "Com o Novembro Azul colocamos a saúde do homem em destaque e focamos na saúde integral do indivíduo. Muitos homens seguem morrendo de câncer de próstata no Brasil e precisamos evitar o diagnóstico tardio. Eles chegam ao SUS já com a doença em nível avançado. Precisamos fortalecer o SUS, já que 70% da nossa população o utiliza. Especificamente em relação ao câncer de próstata, os pacientes não têm acesso às novas tecnologias no sistema público", colocou Oliveira.

Marlene Oliveira   Marlene Oliveira, presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida. Foto: Panóptica?   

 

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens, atrás apenas do câncer de pele não-melanoma. Para 2018, o Inca estimava 68.220 novos casos e, em 2015, foram registradas 14.484 mortes, segundo os últimos dados disponíveis. Mas os problemas de saúde enfrentados pela população masculina vão além do câncer de próstata e esbarram na falta de informação e prevenção.

O educador físico, atleta e jornalista, Vinícius Zimbrão Machado, venceu um câncer de testículo e hoje trabalha junto ao LAL para falar da importância da atividade física na prevenção do câncer e de outras doenças. "Tive câncer no final de 2014 e a atividade física sempre esteve presente na minha vida. Eu busquei informações sobre o câncer com atletas que já enfrentaram a doença e uma das coisas apontadas por eles foi a agilidade no tratamento para conseguir a cura, o que não é uma realidade para todas as pessoas que têm câncer", contou.

Zimbrão fez 21 sessões de quimioterapia, uma média de 5 horas diárias. "Durante a primeira sessão, eu só pensava que poderia estar fazendo exercícios. Então, contei o que estava acontecendo no Facebook, que ficava cinco horas por dia, recebendo a medicação, e pedi para que eles fizessem exercícios no meu lugar. Em poucas horas foram mais de 1.300 curtidas e 700 comentários de apoio e solidariedade. ", relembrou.

Com os relatos das pessoas fazendo atividade física e colhendo benefícios por isto, para comemorar o fim do tratamento, o educador físico lançou o desafio do Zimbrão, que consiste em pedalar, correr ou andar até a Mesa do Imperador, numa subida de 5 km na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Foi este evento que o aproximou do LAL e, hoje, faz parte do calendário anual do Novembro Azul.

A palestra "As doenças e agravos que mais afetam a saúde do homem brasileiro" trouxe um quadro geral sobre o tema para os participantes, reforçando que os cânceres e as doenças do coração estão no topo da lista das que mais matam a população masculina no mundo e a importância do Sistema Único de Saúde para o país. Para o urologista e membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia, Sebastião Westphal, é preciso realizar um rastreamento inteligente do câncer no Brasil. "Estudos internacionais mostram que o rastreamento de PSA diminui consideravelmente o número de mortes e a Sociedade Brasileira de Urologia vem reforçando, junto ao Inca, a importância de realizar este rastreamento em grupos pré-definidos da população", afirmou Westphal.

Durante sua fala, o urologista destacou o crescimento das infecções sexualmente transmissíveis na população em geral, como a AIDS e sífilis, e também na terceira idade, o que mais uma vez está relacionado à informação sobre meios para prevenir essas enfermidades. Westphal falou também das diferentes realidades do atendimento do SUS nos estados brasileiros em relação à saúde do homem. "Temos inúmeros brasis dentro do Brasil. Um dos problemas enfrentados no SUS é a baixa incorporação de novas tecnologias, principalmente fora dos grandes centros. É necessário mobilizar a sociedade sobre o tema e pressionar por melhoras", colocou, lembrando ainda que há uma defasagem em relação ao que é pago e o valor real dos procedimentos realizados na rede pública.

Para o médico oncologista, idealizador do Congresso de Uro-Oncologia e membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado, Fernando Maluf, o SUS é um dos sistemas de saúde mais justos do mundo. "Mas precisa ser reajustado porque há espaço para melhorar. Este SUS, que é tão criticado, diminuiu a mortalidade infantil de 2000 para cá em 50%, promoveu o aumento da expectativa de vida do brasileiro de 69 para 74 anos e a implantação do Programa de Saúde da Família, que atende 35 milhões de pessoas, além de outras conquistas. É preciso haver uma ação combinada entre a sociedade e todos os atores envolvidos na área de Saúde para melhorá-lo", pontuou Maluf.

Fernando Maluf   Dr. Fernando Maluf, médico oncologista, idealizador do Congresso de Uro-Oncologia e membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado. Foto: Panóptica?      

 

Um dos grandes problemas enfrentados pelo país está relacionado ao financiamento da Saúde. Um levantamento realizado pelo Conselho Federal de Medicina, em 2018, revelou que o Brasil gasta R$ 3,48 per capita por dia para cobrir as despesas com saúde de sua população. Este valor refere-se às ações e serviços prestados pelos governos federal, estadual e municipal. "O valor brasileiro é dez vezes menor do que é gasto no Canadá, na Suécia e na Inglaterra, além de ser menor do que o valor de 19 países africanos e de todos os países europeus. Obviamente, temos um problema de financiamento, que é muito restrito e vem piorando", afirmou o oncologista.

Fernando Maluf chamou a atenção ainda para a necessidade de haver uma parceria entre as instituições públicas e as privadas. "Essas parcerias são importantes para que consigamos vencer barreiras na saúde. O terceiro aspecto importante é o investimento em inovação e pesquisa clínica. Ainda temos dificuldades que precisam ser enfrentadas na área de pesquisas clínicas no Brasil. Além disso, também precisamos estabelecer metas para o sistema público e o privado, premiando aqueles que entreguem os melhores cuidados para o paciente", colocou o oncologista, que é ainda diretor médico Associado do Centro Oncológico da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, médico do Comitê Gestor do Hospital Albert Einstein e Coordenador Geral do Centro Oncológico do Hospital Santa Lúcia, em Brasília.

Já o médico cardiologista, chefe do Pronto Atendimento do BP Mirante e membro do Comitê Científico do LAL, Marcelo Ferraz Sampaio, afirmou que o país está falhando também na prevenção das doenças cardíacas. "Os problemas cardíacos são os que mais matam hoje. São 12 milhões de óbitos-ano no mundo - [no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), são 300 mil mortes ao ano]", ressaltou Sampaio. As estimativas relacionadas a problemas cardiovasculares para 2020 são assustadoras. Segundo o especialista, se nada for feito, de cada 100 pessoas, 36 serão vítimas de infarto. "O infarto é a doença cardíaca mais estudada atualmente e ele acontece porque existem fatores de risco bem identificados, como pressão arterial, obesidade, colesterol, sedentarismo, diabetes e tabagismo", salientou o membro do Comitê Científico do LAL.

Para Sampaio, apesar do bom conhecimento e entendimento sobre as doenças cardíacas, o Brasil ainda não consegue preveni-las. "Se tomamos a hipertensão arterial como exemplo, basta termos um aparelho de pressão e alguém treinado para medi-la. Ela é facilmente tratável e é um problema de saúde pública. De 27 a 59% das pessoas ignoram que são hipertensas e somente 30% dos tratados estão controlados. Por tudo isso, precisamos focar na prevenção e as doenças cardíacas estão relacionadas à saúde do homem. Os homens morrem mais que as mulheres por problemas do coração entre 10 e 69 anos. Entre 70 e 89% das mortes súbitas ocorrem em homens", apontou o cardiologista. Com isso, para o membro do Comitê Científico, a melhora efetiva na saúde do homem brasileiro passa pela cardiologia. "A interação entre a cardiologia e outras especialidades é fundamental e necessária para melhorar a saúde da população masculina no país", concluiu.

O Seminário de Políticas Públicas sobre Saúde do Homem teve ainda a Mesa Redonda "Ser Homem no Brasil" e o debate "As Políticas Públicas e a linha de cuidados para a saúde do homem", com a presença de representantes da Coordenação Nacional de Saúde do Homem do Ministério da Saúde, da Organização Pan-americana de Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde, da Associação Presente de Apoio aos Pacientes Carentes com Câncer e da Diretoria de Educação Profissional e Promoção Social - Serviço Nacional de Aprendizagem Rural.

Leia matéria sobre a segunda parte do Seminário: Promoção de saúde do homem deve começar desde a infância