Os desafios para a saúde na próxima década

Os desafios para a saúde na próxima década

*Por Marlene Oliveira, presidente e fundadora do Instituto Lado a Lado pela Vida

Estamos no segundo mês de 2020 e o mundo já está em alerta devido ao surto de Covid-19, uma nova cepa do coronavírus que surgiu na China. Milhares de pessoas já morreram e mais de 65 mil casos da doença foram confirmados. O coronavírus já se espalhou para outros países e, por enquanto, no Brasil só há casos suspeitos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou estado de emergência global em janeiro e pediu para que as autoridades de todo o mundo se empenhem para conter o virus. 

Preparar-se para epidemias e pandemias é um dos 13 desafios de saúde para a próxima década ( leia matéria completa aqui ), segundo a OMS. Para a agência, o aparecimento de um novo e altamente infeccioso vírus transmitido pelo ar é inevitável e não devemos mais nos perguntar se uma nova pandemia irá surgir, mas sim quando isso acontecerá. A questão é que, ano após ano, "o mundo gasta mais respondendo aos surtos de doenças, desastres naturais ou outras emergências de saúde, do que se preparando ou prevenindo-os", afirma a agência em comunicado para a imprensa. 

Também já sabemos, por casos anteriores, que epidemias e pandemias causam, além das perdas de vidas, prejuízos econômicos consideráveis, com consequências piores para países de baixa renda. Os analistas apontam que o dano econômico do coronavírus pode ser maior do que o causado pela epidemia de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), mas afirmam que ainda é cedo para medir o real impacto econômico. 

A situação causada pelo novo coronavírus e outras anteriores mostram que saúde e economia estão intimamente ligadas. E unir esses dois temas nas discussões é necessário e algo que o Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) tem feito desde sua fundação em 2008. A sustentabilidade dos sistemas de saúde e a adoção de políticas efetivas para a prevenção de doenças são bandeiras do LAL para melhorar a saúde do brasileiro. Sabemos que a prevenção e o diagnóstico precoce geram menores custos para o sistema do que o valor gasto em tratamentos mais complexos, exigidos por doenças em estados avançados. Foi justamente para ampliar esse debate com diferentes atores nacionais e internacionais que, em outubro de 2019, o LAL realizou a primeira edição do Global Forum - Fronteiras da Saúde, inspirado no Fórum Econômico Mundial de Davos. 

As discussões propostas no evento também estão de acordo com outros pontos levantados pela OMS, como tornar os cuidados de saúde mais justos, combater as fake news e tirar proveito das novas tecnologias em saúde. Para a agência global (ou internacional), "as diferenças socioeconômicas crescentes e persistentes resultam em grandes discrepâncias na qualidade da saúde das pessoas". Basta olhar para o Brasil para perceber como essas diferenças refletem na qualidade do atendimento de saúde da população. A atenção primária à saúde é uma bandeira levantada pelo Lado a Lado como forma de diminuir a desigualdade e melhorar a saúde da população, algo colocado pela OMS como necessário para tornar os cuidados de saúde mais justos. 

As novas tecnologias podem e devem ser usadas para melhorar os sistemas e a saúde no mundo todo. Elas já estão revolucionando a prevenção, o diagnóstico e o tratamento de muitas doenças, principalmente o câncer. Mas democratizar seu uso, principalmente nos países de média e baixa renda, esbarra e para muitas vezes em questões financeiras. São poucos os governos que possuem recursos disponíveis para oferecer os tratamentos mais avançados para sua população. As discussões sobre o tema no Global Forum são justamente sobre como equilibrar essa balança para que todos tenham acesso aos mesmos tratamentos e condições, lembrando sempre que devemos ter definições sobre monitoramento e regulação dos dados dos pacientes, como destaca a OMS. 

Outro desafio para a próxima década é recuperar a confiança da opinião pública nos serviços de saúde, algo que foi perdido com a disseminação sem controle de notícias falsas nas mídias sociais. A volta de doenças evitáveis por vacinas, como o sarampo e a pólio, está relacionada, em grande medida, aos movimentos antivacinas e à disseminação de notícias falsas. Por isso, é tão importante que o tema seja discutido por toda a sociedade e haja um trabalho comprometido por parte das empresas de mídias sociais para diminuir o alcance desses conteúdos falsos. A tecnologia tem que ser nossa aliada no combate às fake news, que muitas vezes podem fazer com que pessoas procurem atendimento médico tarde demais. O combate precisa envolver toda a sociedade para ser efetivo. 

O Global Forum é uma oportunidade para pensarmos todos juntos a saúde no país e trocarmos experiências com outros países que enfrentaram problemas semelhantes aos nossos. A próxima edição acontecerá nos dias 27 e 28 de agosto em São Paulo. Como presidente do Instituto Lado a Lado, convicta de que nosso trabalho impacta a vida dos brasileiros e entendendo que podemos ir além da crítica pela crítica e, sim, identificar caminhos e possíveis soluções e, ainda, assumir a co-responsabilidade convido a todos a virar esse jogo e serem nossos parceiros na próxima edição desse evento, que já se posiciona como um divisor de águas para o caminho da sustentabilidade dos sistemas de saúde no Brasil. Tenho certeza de que lado a lado podemos efetivamente melhorar a saúde do brasileiro.

 

Foto: Robert Wei/Shutterstock.com