Medicina Personalizada: é possível aplicar na saúde pública?

Medicina Personalizada: é possível aplicar na saúde pública?

Por Marcelo Cruz, oncologista

 

A área de saúde atingiu um grau de avanços tecnológicos e de conhecimentos científicos sem precedentes nas últimas 2 décadas. Um grande destaque é sequenciamento do genoma humano, trazendo informações sobre os genes, suas mutações, as funções específicas e suas intrincadas vias de sinalização, levando ao melhor entendimento da história natural de diferentes tipos de doenças. Como consequência, prevenir, detectar precocemente e tratar o paciente de forma mais acurada tem se tornado uma realidade. Graças a esses conhecimentos, estamos tornando o sonho da Medicina Personalizada uma realidade.

Medicina Personalizada, ou de precisão, baseia-se em oferecer o tratamento mais adequado para o paciente utilizando o máximo de informações possíveis sobre as características individuais desse paciente. O Projeto do Genoma Humano, completado em 2003, abriu as portas para o que hoje conhecemos como farmacogenômica, onde a análise genética de um individuo auxilia na definição da terapia adequada, otimizando a eficácia do tratamento. Nos últimos 10 anos, o custo de um sequenciamento genético caiu exponencialmente, da ordem de bilhões de dólares em 2003 para cerca de 5 mil dólares atualmente.

De forma que a aplicação da Medicina Personalizada pode ser vista hoje em diversas áreas da medicina. Pacientes com câncer de mama, pulmão, melanoma ou leucemia recebem análises moleculares dos tumores visando definir a terapia-alvo mais adequada. As mutações do EGFR, ALK, BRAF, BRCA, antes restritas às publicações científicas de revistas especializadas em biologia molecular, estão presentes hoje no dia a dia das clínicas de oncologia.

O conhecimento sobre as variações dos mecanismos de metabolização de drogas entre os indivíduos mostra que o conceito de que one size fits all não é o mais adequado, ou seja, a mesma classe de medicamento em uma dosagem uniforme para todos os pacientes não é o mais apropriado em diversas áreas como cardiologia, neurologia, psiquiatria, reumatologia, câncer. Cerca de 40% dos pacientes com depressão, 50% dos pacientes com artrite e 40% dos pacientes com diabetes não respondem ao tratamento inicial. Essas diferenças residem nas variações nos genes que codificam enzimas metabolizadoras de drogas, agentes transportadores ou alvos dos medicamentos.

Como se não bastasse a ineficácia do medicamento, soma-se a isso o risco de reações adversas ao medicamento, representando a 4a causa de internações nos Estados Unidos, com número de mortes superior a 100 mil por ano e acarretando gastos bilionários. De fato, a Medicina Personalizada pode auxiliar o médico a fornecer o tratamento mais eficaz e seguro, com menor risco ao paciente.

Além da terapia de precisão, a Medicina Personalizada pode se antecipar à doença abrindo caminho para o uso de marcadores moleculares capazes de detectar o risco que o indivíduo tem de desenvolver uma doença no futuro. As mutações dos genes BRCA1 e 2, relacionados com risco do desenvolvimento do câncer de mama e outros tumores são um exemplo disso. A detecção dessa mutação permite que se desenvolvam estratégias de prevenção e rastreamento específicos para a população de risco. E novas alterações genéticas que predispõem a diferentes patologias têm sido incorporadas na prática clínica.

A Medicina Personalizada tem potencial para reduzir o custo relacionado à saúde globalmente. Diversos estudos, em diferentes especialidades, têm apresentado esses dados. Em oncologia, assinaturas moleculares que reduzem indicação de quimioterapia e consequente custo associado ao tratamento já são realidade. Testes moleculares que selecionam a terapia alvo de acordo com determinado tipo de mutação também estão presentes no dia-a-dia do oncologista.

No Brasil, temos potencial de utilizar todos os benefícios que a Medicina Personalizada pode oferecer. Também podemos contribuir com novas descobertas, diante de características ímpares de nossa população. Sabemos que isso requer o esforço conjunto de pesquisadores, fontes financiadoras, desenvolvedores de políticas públicas e agências reguladoras. E, um passo fundamental é iniciarmos esta integração.