Evitar novos fumantes e diminuir número de ativos são desafios para o Brasil

Evitar novos fumantes e diminuir número de ativos são desafios para o Brasil

País é exemplo no combate ao tabagismo, mas ainda tem 18 milhões de dependentes do cigarro


Bia Rodrigues, Redação LAL - Cerca de 9,3% da população brasileira fuma, segundo dados da última Pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizada pelo Ministério da Saúde). Esse índice já foi maior. Em 2006, ano da primeira edição da pesquisa, o porcentual de fumantes no Brasil era de 15,6%. Em 12 anos, a queda no consumo de tabaco foi de 40%. A política governamental para a redução do consumo no país tem dado resultados tão bons, que na avaliação da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é exemplo para o mundo no combate ao tabagismo, ao lado da Turquia.

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Quem não se lembra de ir a bares e restaurantes e voltar para casa com a roupa cheirando a cigarro, mesmo sem ser fumante? As leis do ambiente livre da fumaça do tabaco começaram a ser implementadas entre 2000 a 2012 pelos estados e o Distrito Federal. Em 2014, foi regulamentada a Lei Antifumo (Lei 12.546/2011), proibindo fumar em locais fechados ou parcialmente fechados de uso coletivo, públicos ou privados (como halls e corredores de condomínios, restaurantes e clubes).

Mas, apesar das restrições, ainda há cerca de 18 milhões de brasileiros fumantes. O desafio agora está em evitar que novos indivíduos passem a fumar e diminuir ainda mais a taxa de fumantes ativos. Segundo a cardiologista e coordenadora da Área de Cardiologia do Programa de Tratamento do Tabagismo do InCor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP), Jaqueline Scholz, a taxa de novos iniciantes tem ficado baixa no Brasil, graças às restrições adotadas para a publicidade do cigarro, ao preço do produto e às informações sobre os malefícios que o vício traz. "É preciso continuar com tudo o que já foi adotado no país como política para redução do consumo de tabaco. Aumentar o preço real e tentar conter a entrada de cigarro contrabandeado pelas fronteiras são dois aspectos importantes para controlar a taxa de novos iniciantes", afirma a cardiologista.

Por outro lado, os fumantes ativos precisam ser mobilizados e motivados a parar de fumar. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece, desde 2004, tratamento para quem deseja largar o cigarro. O tratamento envolve métodos de acompanhamento da saúde e psicológico e, caso seja necessário, há ainda a terapia de reposição de nicotina, goma de mascar, pastilha e cloridrato de bupropiona. O Ministério da Saúde possui também o Disque Saúde (136), onde os fumantes recebem orientações sobre o atendimento do SUS. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), quase 1,6 milhão de brasileiros fizeram o tratamento para parar de fumar na rede pública de saúde, entre os anos de 2005 e 2016.

Além disso, alguns hospitais de alta complexidade também oferecem tratamento para seus pacientes, como por exemplo, o InCor. "Temos um tratamento para pacientes que tiveram problemas cardíacos, por exemplo, e precisam de uma abordagem mais específica. A nossa taxa de sucesso está ao redor de 60%, o que é bastante animador. Além da escolha de medicamentos, inclusive a associação deles, aplicamos a técnica comportamental Fumar de Castigo. Por meio dela o fumante não marca uma data para parar de fumar, como é feito em muitos casos, mas fuma de uma forma diferente, aliado com medicação. Assim o paciente não tem aquela ansiedade e angústia de ter uma data certa para largar o cigarro, o que pode afastar a pessoa do tratamento ao gerar frustações, caso ele não consiga", explica a coordenadora da Área de Cardiologia do Programa de Tratamento do Tabagismo do InCor e criadora da técnica Fumar de Castigo.

A informação é peça-chave para se tornar um ex-fumante. E para isso, vale conversar com o médico de confiança, procurar algum grupo de apoio, fazer pesquisas na internet em sites de referência, para evitar aconselhamento errôneo e "fake news", ou conversar com pessoas que já passaram pelo processo.  "Até hoje eu tenho essa sensação de que é bom fumar.  Parei por seis meses quando tinha 25 anos, mas voltei. No dia 25 de julho de 2009, parei de fumar por causa de uma gripe forte. Não fiz nenhum tratamento específico, mas montei uma estratégia. Li muitos blogs na internet de fumantes que relatavam o dia a dia deles para deixarem de fumar. Aprendi neles sobre os passos para lidar com os desafios que largar o vício representava. Encontrei muitas dicas importantes", conta o analista de sistemas Cláudio Bidóia, 57 anos, que há dez anos largou o cigarro. "A melhor coisa que um fumante pode fazer pela sua saúde é parar. Este processo não precisa ser feito sozinho. Ele pode e deve procurar ajuda, se sofre ou se está muito difícil. Procurar por tratamento pode ser decisivo para ter sucesso", enfatiza a cardiologista do Incor.