Coronavírus: como manter a saúde emocional durante o isolamento?

Coronavírus: como manter a saúde emocional durante o isolamento?

Para a psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, "a comoção do momento é comparável à de uma guerra mundial, para a qual ninguém está completamente preparado"
Matéria publicada em 30.03.2020


Bia Rodrigues, Redação LAL - A pandemia de coronavírus, decretada na primeira quinzena de março, fez os governos de diferentes países adotarem medidas restritivas de circulação para conter o avanço da Covid-19, colocando grande parte da população mundial em isolamento. Além das consequências políticas, econômicas e a pressão nos sistemas de saúde, há uma preocupação com os efeitos disso na saúde emocional e nos relacionamentos, sejam eles familiares ou amorosos, da população.

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Para a psiquiatra, sexóloga e membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, Dra. Carmita Abdo, o momento que vivemos tem proporções que não são conhecidas pela maioria da população do mundo. "O momento é de crise. A comoção é comparável à de uma guerra mundial, para a qual ninguém está completamente preparado", explicou a especialista, que também é coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, em entrevista exlusiva à Redação LAL .

A saúde emocional pede atenção em momentos de crise, principalmente, àqueles que já apresentavam um quadro emocional instável, que podem desencadear ansiedade e depressão. "Stress pós-traumático pode acometer os mais vulneráveis, quando submetidos a uma situação como a que vivemos agora. Quem tem perfil obsessivo-compulsivo pode exacerbar os pensamentos e os rituais característicos. Além disso, agressividade, irritabilidade, insônia, uso abusivo de bebidas alcóolicas, inapetência ou comer compulsivamente são alguns dos quadros que também podem ocorrer", explicou a psiquiatra e sexóloga.

Para a especialista, é preciso variar as atividades durante esse período que nos coloca em uma convivência mais intensa com as pessoas que vivem sob o mesmo teto. "É fundamental ter uma agenda de atividades diversificadas, que ocupe adultos e crianças. Caso contrário, as pessoas começam a se sentir cansadas de não fazer coisa alguma ou de repetir as mesmas atividades todos os dias, sem nenhum propósito mais gratificante", pontuou. 

A vida de todos foi alterada de uma hora para outra com o agravamento da pandemia e o consequente aumento do número de casos e de mortes registradas pela Covid-19. Segundo a psiquiatra, há uma lição a ser tirada para os tempos de não crise. "Esta crise está nos mostrando como a rotina funciona, nos organizando e nos propiciando realizar nossos projetos, em tempos de não crise. A atual impossibilidade de uma rotina, por sua vez, nos confirma que viver um dia de cada vez é a única saída, para não frustramos nossas expectativas", acrescentou.

A seguir, leia a entrevista completa com a psiquiatra e sexóloga Dra. Carmita Abdo:

Redação LAL - A orientação para que o número de casos confirmados pare de crescer é diminuir a interação social e adotar, quanto possível, o isolamento. É uma situação extrema e atípica. O Brasil não tem histórico de situações extremas, como as causadas por conflitos armados, terrorismo ou terremotos, então, talvez não estejamos preparados para isso. Quais dicas a senhora dá para que as pessoas mantenham o equilíbrio emocional nesse período em que o isolamento é a melhor ação contra a propagação do coronavírus?

Dra. Carmita Abdo - O isolamento do mundo social, ao manter as pessoas dentro de casa, necessariamente as coloca numa convivência mais intensa e incomum na vida contemporânea.  A agenda ideal é aquela que tenta suprir o dia de com ações básicas do cotidiano, mescladas a entretenimento e exercícios físicos. Os aplicativos estão repletos de dicas de, por exemplo, como se exercitar num espaço restrito e sem aparelhos de academia. O home office é importante, para não ficarmos acomodados em férias sem fim, sem hora para acordar nem para dormir, comer, tomar banho. Outra providência muito importante é manter-se informado, mas não se tornar refém do noticiário ou, pior, das fake news. 

Recomendo que aqueles que têm filhos aproveitem para iniciar ou consolidar a conversa e a convivência em família. Para os casais sem filhos, o tempo livre pode ser precioso para atividades a dois, almejadas há muito, como reorganizar os livros, as bebidas, os dados no celular. Ficar de pijama em casa? Nem pensar! Muito menos descuidar da aparência. 

Já que tem mais tempo livre, dedique-se a você e mantenha-se em forma e alinhado(a). Ler livros, assistir filmes, séries e documentários, ouvir música, arrumar o armário, cozinhar, aprender algo novo pela internet... essas são as opções que mantêm  equilíbrio emocional e vencem o isolamento.

Redação LAL - Quais cuidados com a saúde emocional dos idosos as famílias precisam adotar? No caso do idoso morar sozinho, como a família pode minimizar a solidão desse momento?

Dra. Carmita - A família deve observar como seus idosos estão reagindo ao noticiário. Tentar mobilizar o interesse deles por outros temas é saudável. Mais atenção ainda, se um amigo ou parente de mais idade adoecer ou morrer pelo coronavírus-19. Este fato impacta negativamente a todos e, em especial, aqueles que são do grupo de risco.

Com os recursos das mídias sociais, podemos visitar os idosos que vivem sozinhos. A visita presencial não é bem-vinda, nesta fase em que ainda estamos aprendendo como driblar o COVID-19.  Organizar, por exemplo, três a quatro contatos telefônicos diários, cada um feito por alguém da família ou amigo, faz toda a diferença para quem está só, seja idoso ou jovem. Ouvir a voz de um ente querido vale muito!

Redação LAL - O excesso de notícias e informações compartilhadas tem levado o ser humano a um descontrole e a uma insegurança sem igual, principalmente, durante a pandemia do coronavírus. Como podemos nos proteger psicologicamente desse impacto de um grande número de informações chegando pelas redes sociais?

Dra. Carmita - Como já falei anteriormente, mantenha-se informado, por meio de fontes seguras. Acesse as notícias uma ou duas vezes ao dia, não mais que isso. Evite ficar refém do noticiário. E, principalmente, tenha bom senso, para não se angustiar com catástrofes anunciadas. A fantasia costuma ser mais hard do que a realidade. Cuidado com ela e com a enxurrada de maus presságios dos alarmistas "de plantão". Mensagens de ânimo são benvindas, além do noticiário.

Redação LAL - Como os profissionais de saúde e cuidadores podem diminuir os transtornos psíquicos, afinal, eles estão em contato com pacientes e isso causa uma ansiedade e um medo de ser infectado?

Dra. Carmita - O medo pode ser um aliado. Faz a gente se proteger mais. Conhecer os seus limites e não abusar da sua capacidade é a recomendação. Ninguém é tão forte que não fraqueje numa situação de calamidade. Mas não há fraco que não possa exercitar a vontade de se superar.

Não se trata de "pensar positivo". A ideia é não "pensar só no caos". Perceber as incríveis demonstrações de afeto que acontecem a nossa volta faz bem. Demonstrações de solidariedade, gratidão e esperança são poderosas. Ajudam a fortalecer as defesas do organismo.

Redação LAL - Quais são as dicas para lidar com a ansiedade e o medo que podem surgir neste momento de emergência sanitária que vivemos, principalmente para aqueles que não podem trabalhar de casa e precisam lidar com público?

Dra. Carmita - Para aqueles que não podem trabalhar de casa e precisam lidar com o público, a recomendação é "proteja-se!". A proteção deve ser tanto no plano físico (máscara, luvas, higienização das mãos, etc.) quanto no plano mental (evite conversas deprimentes, presságios negativos, noticiários alarmantes) e no plano afetivo, se aproxime daquilo que lhe faz bem. Ouvir música, dançar, conversar, programar o futuro, observar a natureza, as crianças, as obras de arte - tudo pela internet.

Redação LAL - Há algo que não podemos esquecer de realizar neste momento, que não foi citado antes?

Dra. Carmita - Talvez tenha faltado uma última recomendação: aproveite esse isolamento social, para reforçar ou retomar a sua conexão consigo mesmo! Nada é tão relaxante quanto sentir harmonia entre convicções e ações pessoais.