Como assim, Dr. Falci?: Meu filho faz xixi na cama. É normal?

Como assim, Dr. Falci?: Meu filho faz xixi na cama. É normal?

Por Renato Falci Jr.*

A enurese noturna é a perda involuntária de urina durante o sono e ocorre entre o período do desfralde (momento em que se retira as fraldas das crianças) até o perfeito controle da urina (esfincteriano) que se completa com o crescimento. Apesar de fazer parte do processo natural do crescimento da criança, ela pode causar estresse na vida familiar.

Durante o primeiro ano de vida, a criança não tem controle algum sobre sua micção. Ela ocorre espontaneamente como um reflexo, ou seja, a bexiga enche e esvazia automaticamente. A partir de um ano de idade, o cérebro da criança já começa a perceber que a bexiga está cheia, mas ainda não há maturidade para controlar a micção.

A completa maturidade com controle voluntário da micção pela criança ocorre em idades variáveis. Aos 5 anos de idade, 85% das crianças têm controle completo. Já o restante torna-se continente num ritmo de 15% ao ano. Os casos de enurese durante a puberdade e na vida adulta são raros, mas podem acontecer.

Podemos dizer que quanto mais cedo o desfralde, menor será o controle da criança sobre a vontade de urinar. Ou seja, maior será o número de casos de enurese. Até um episódio de enurese noturna por mês é aceitável. Muitos pais ficam preocupados e ansiosos para que essa fase passe logo. Para saber se há motivos para se preocupar, é preciso observar se a criança urina normalmente e tem controle da micção durante o dia, se urina com bom fluxo, sem gotejamento ou interrupções.

Quando a enurese ocorrer mais de uma vez ao mês ou quando for acompanhada de outros sintomas urinários como perdas de urina, vontade urgente de urinar, jato intermitente ou infecções, os pais devem levar a criança a um urologista para uma avaliação especializada.

A avaliação do urologista tem como objetivo descartar doenças que podem estar por trás desse sintoma. A importância do diagnóstico correto está no fato de que outras doenças necessitam de tratamentos específicos. Já a enurese noturna desaparece naturalmente com o crescimento da criança, na imensa maioria dos casos.

Para essa avaliação, os pais ou responsáveis precisam dar alguns dados importantes sobre a criança para o profissional. São eles: história familiar, quantidade e horário de ingestão de líquidos, hábitos e intervalos de micção, hábito intestinal, padrão do sono e histórico de doenças do trato urinário, entre outros.

Ao descartar outras doenças, é preciso entender que a enurese noturna se trata de uma condição que, na imensa maioria das vezes, cura-se sozinha com o desenvolvimento da criança. Outro ponto essencial é não culpar a criança porque se  trata de uma perda involuntária.

Algumas mudanças comportamentais podem ajudar a diminuir a ocorrência da enurese noturna, como adequar a ingestão de líquidos, regularizar o hábito intestinal e estabelecer padrões miccionais para a criança. Os pais também podem lançar mão da tecnologia para minimizar o estresse causado pela enurese noturna. Há hoje no mercado alarmes urinários, que acordam a criança assim que começa a urinar na cama. Assim ela pode levantar e ir ao banheiro. Também há medicamentos que inibem a produção de urina à noite, mas que somente devem ser usados sob orientação médica.

O importante é lembrar que, com o crescimento, a grande maioria dos casos de enurese noturna se cura sozinha e, portanto, uma certa prudência é necessária para que o tratamento não cause mais transtornos que o problema inicial.