A pandemia e o risco da desassistência às demais doenças

A pandemia e o risco da desassistência às demais doenças

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil


Por Renato Falci Jr.*
Texto publicado em 08.05.2020


Não há dúvidas que estamos vivendo um momento único no mundo. A situação semelhante mais próxima dessa pandemia do novo coronavírus data de mais de 100 anos, quando ocorreu a gripe espanhola.

O coronavírus é um vírus que causa, na maioria das vezes, sintomas de resfriado comum nas pessoas. A particularidade da mutação atual, que causou a COVID-19 (corona virus disease - 2019), é sua capacidade de gerar uma doença sistêmica grave, com pneumonia, em um número significativo de pacientes, além da ausência de anticorpos da população, por ser, aparentemente um vírus que infectava animais. Essas características fazem com que uma parcela significativa dos infectados necessitem de atendimento hospitalar. 

Com o súbito aumento da demanda por mais leitos hospitalares de alta complexidade, três fatores passam a ser importantes, para que entendamos o cenário da saúde frente a esse desafio:

1 - Como mencionado acima, a COVID-19  gera uma demanda alta por leitos hospitalares, parte deles de alta complexidade.

2 - O custo da expansão da rede hospitalar de alta complexidade é alto.

3 - A maior parte dos leitos hospitalares no ocidente (e provalmente no mundo) são de propriedade do estado e, com isso, têm orçamento limitado, encontrando certa dificuldade em se adaptar frente ao súbito aumento da demanda.

Diante disso, em uma força tarefa para se evitar o horripilante cenário de óbitos pela COVID por falta de assistência, houve três frentes de atuação, buscando o controle da situação no curto prazo: aumento do número de leitos (hospitais de campanha), realocação da estrutura já instalada (designação de leitos já existentes para atendimento exclusivo de pacientes infectados) e medidas que diminuam a transmissão, entre elas, o isolamento social. 

Ocorre que a estrutura da saúde, até pelo seu alto custo, não contava com grande reserva funcional, ou seja, capacidade instalada e não utilizada. Com isso, a realocação de recursos esconde um grande risco, de difícil mensuração, que é a desassistência aos pacientes com outras doenças. Hospitais chamados de terciários, que centralizavam o atendimento a pacientes de alta complexidade, tiveram que ceder parte de seus leitos para pacientes com COVID, diminuindo a capacidade de atendimento aos pacientes não infectados. Ocorre que, dependendo da gravidade da doença, é muito difícil transferir o atendimento para uma estrutura hospitalar de nível de complexidade inferior. Quanto mais longa for a pandemia, mais crítico será esse problema. 

Não podemos negar que sempre houve a preocupação em evitar a desassistência. Como exemplo, considerado o maior hospital de alta complexidade da América Latina, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP cedeu seu Instituto Central para atendimento a pacientes com COVID e conseguiu manter suas especialidades em funcionamento nos institutos adjascentes. No entanto, pelo próprio risco inerente à pandemia, os atendimentos acabam sendo reduzidos em números absolutos. 

O grande desafio do momento atual em diante será dimensionar as medidas para tratamento da pandemia, para que não haja desperdício de recursos que poderão fazer falta para a sociedade, que já se encontra bastante consumida pelo contexto. Com muita dificuldade saberemos o preço total pago a esse vírus, pois muitas variáveis não teremos condições de aferir.

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